


{"id":232,"date":"2021-12-21T12:05:48","date_gmt":"2021-12-21T15:05:48","guid":{"rendered":"https:\/\/memoriaambiental.org\/?p=232"},"modified":"2022-02-09T09:11:57","modified_gmt":"2022-02-09T12:11:57","slug":"casa-15-porta-aberta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/casa-15-porta-aberta\/","title":{"rendered":"Casa 15, Porta Aberta"},"content":{"rendered":"<p><em>Josefa Gomes, 72 anos, natural da Para\u00edba, minha bisav\u00f3, viveu 45 anos na Mar\u00e9. Minha mem\u00f3ria fala sobre os ensinamentos que ela deixou, o quanto isso influencia nas mulheres da minha fam\u00edlia at\u00e9 hoje e a import\u00e2ncia de termos mulheres como ela no territ\u00f3rio. Minha av\u00f3 teve 19 filhos, 10 morreram de fome antes de chegar na mar\u00e9, os outros 6 morreram aqui de doen\u00e7as causadas pela \u00e1gua suja. Ela enterrou todos os seis no cemit\u00e9rio do Caju e fazia todo esse percurso a p\u00e9, porque n\u00e3o tinha condu\u00e7\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p>Yo creo que para conocer la historia de un lugar hay que ir tras las personas que han estado all\u00ed desde el principio. La gente lleva recuerdos de la Mar\u00e9 que nunca se documentaron ni se hablaron, cosas sencillas que marcan una gran diferencia a la hora de entender el territorio. Para registrar este recuerdo, investigu\u00e9 los lugares a los que le gustaba ir, la casa donde viv\u00eda, documentos y cosas personales que me pudieran ayudar a entender m\u00e1s sobre ella.<\/p>\n<p><strong>Dona Guida<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-233 alignright\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.28-227x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"227\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.28-227x300.jpeg 227w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.28-9x12.jpeg 9w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.28.jpeg 535w\" sizes=\"auto, (max-width: 227px) 100vw, 227px\" \/><\/p>\n<p>Chegando na mar\u00e9 por volta da d\u00e9cada de 70, depois de sofrer com a fome do nordeste, morou em uma casa de palafita desde sempre no mesmo endere\u00e7o. Por falta de \u00e1gua andava por quase 1km com baldes na m\u00e3o em cima da passarela de madeira, e caso algum amigo ou parente falecesse eram mais 4km a p\u00e9 para poder se despedir.<\/p>\n<p>Gostava de andar independente da situa\u00e7\u00e3o. Sol, chuva e at\u00e9 tiroteio. Esperava sempre os momentos certos para dizer que esqueceu de comprar uma \u201ccoisinha\u201d ali na Teixeira. Mesmo com pinos no joelho n\u00e3o deixava de passear. Mancava, descansava, se atrasava, mas chegava com uma toalhinha na cabe\u00e7a para se proteger do sol e a garrafa de \u00e1gua debaixo do bra\u00e7o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 Dona Josefa, ou melhor, Dona Guida. Mulher, filha, esposa, m\u00e3e, av\u00f3, bisav\u00f3 com um qu\u00ea de fofoqueira ou s\u00f3 muito curiosa. A mulher das plantas e xaropes milagrosos. A dona das roupas mais floridas da Jardim Am\u00e9rica, que de t\u00e3o apegada a sua f\u00e9, depois de morta at\u00e9 de santa foi chamada.<\/p>\n<p><strong>Mulheres do territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n<p>A mem\u00f3ria que temos da Dona Guida \u00e9 carregada de amor. Toda vez que fecho os olhos consigo materializar ela na minha frente sentada da porta de casa com um vestido florido e muito colorido, os cabelos presos e um sorriso no rosto. Consigo escutar sua voz me perguntando pela minha m\u00e3e e o<br \/>\ncheiro do ch\u00e1 de boldo que vem da cozinha. Ela sempre foi t\u00e3o cheia de detalhes que \u00e9 quase imposs\u00edvel esquec\u00ea-la. E n\u00e3o vamos!<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, a mar\u00e9 ainda sofria com a falta de saneamento b\u00e1sico e assim crescendo a dificuldade de morar no territ\u00f3rio. Al\u00e9m das doen\u00e7as, os moradores tinham muito trabalho para conseguir \u00e1gua, como minha av\u00f3. Em 1984 a chapa rosa, um coletivo s\u00f3 de mulheres, foi eleita para a Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Nova Holanda. Come\u00e7aram a fazer mutir\u00f5es para conseguir \u00e1gua e saneamento b\u00e1sico, aos poucos foram conquistando espa\u00e7o e lutando pelos direitos dos moradores.<\/p>\n<p>Precisamos enfatizar a import\u00e2ncia e influ\u00eancia de mulheres como Eliana, Dona Helena, Maria Am\u00e9lia, Dona Guida e outras figuras que fazem parte do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p><strong>Amor de gera\u00e7\u00f5es <\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da gen\u00e9tica, algo muito presente nas mulheres da minha fam\u00edlia \u00e9 o amor e o cuidado. Essa ess\u00eancia foi passada por gera\u00e7\u00f5es e gera\u00e7\u00f5es; lembro de como minha m\u00e3e insistia que eu entendesse a import\u00e2ncia de ser gentil e cuidadosa com o pr\u00f3ximo, independente da minha rela\u00e7\u00e3o com aquela pessoa, desde um grande amigo at\u00e9 algu\u00e9m que eu acabara de conhecer na fila do mercado. Imagino que essa li\u00e7\u00e3o foi passada a ela por minha av\u00f3, que por sua vez aprendeu com minha bisav\u00f3 e assim do mesmo modo, o que faz com que eu sinta a necessidade de passar isso adiante para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es e continuar essa linhagem de mulheres fortes, determinadas e donas de um cora\u00e7\u00e3o cheio de amor.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-234 aligncenter\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-300x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-300x300.jpeg 300w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-150x150.jpeg 150w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-768x768.jpeg 768w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52-12x12.jpeg 12w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/WhatsApp-Image-2020-11-24-at-19.27.52.jpeg 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Josefa Gomes, 72 anos, natural da Para\u00edba, minha bisav\u00f3, viveu 45 anos na Mar\u00e9. 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