


{"id":100,"date":"2021-06-22T15:22:10","date_gmt":"2021-06-22T18:22:10","guid":{"rendered":"http:\/\/memoriaambiental.org\/?p=100"},"modified":"2021-12-21T15:58:07","modified_gmt":"2021-12-21T18:58:07","slug":"curabitur-eget-eros-non-nibh-luctus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/curabitur-eget-eros-non-nibh-luctus-2\/","title":{"rendered":"VERDE DEMANDA"},"content":{"rendered":"<p>Autora: Leona Kal\u00ed<\/p>\n<p>A am\u00e1vel mem\u00f3ria que venho compartilhar \u00e9 sobre o meu primeiro contato com as plantas. Todo esse conhecimento, a conex\u00e3o, a linhagem de curandeiras, est\u00e1 presente na hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia. A partir desse conv\u00edvio, entendi o que era o mundo e qual era meu papel nele. Quando reflito sobre minha linhagem ancestral, espiritual e gen\u00e9tica vejo que tamb\u00e9m estou ligada a um pensar que v\u00eam de \u00c1frica e da ideologia de ser comunidade e n\u00e3o somente eu. Ao mesmo tempo que sou corpo individual, sou corpo coletivo por trazer essa heran\u00e7a no meu DNA. Isso tamb\u00e9m aprendi na umbanda, pr\u00e1tica religiosa que faz parte da minha vida desde o nascimento.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s quando acordava, ia atr\u00e1s do afago de m\u00e3e e sempre a encontrava do mesmo jeito: na varanda, regando e conversando com as plantas, as pernas na forma do n\u00famero quatro, sustentando toda delicadeza e cuidado em uma perna s\u00f3.<\/p>\n<p>Ficava na janela olhando, era n\u00edtido a felicidade e satisfa\u00e7\u00e3o florida em seu rosto, a paz que aquele momento trazia. Era admir\u00e1vel ver o quanto elas se entendiam, como eram amigas. Era um dos meus momentos favoritos.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e me chamava para perto e eu ia toda serelepe, pisando nas folhas mortas e na \u00e1gua gelada que dava um arrepio na pele. E ent\u00e3o come\u00e7ava os ensinamentos: como cuidar, como regar, quais eram para ch\u00e1, quais eram para banhos, que afastam dor, tristeza, ins\u00f4nia, qual planta era de qual orix\u00e1, cada uma com sua finalidade. Era como integrar um clube secreto onde s\u00f3 n\u00f3s sabiamos nos comunicar, com elas aprendi o significado de amor e cuidado.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-207 alignright\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade-300x300.png 300w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade-150x150.png 150w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade-768x768.png 768w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade-12x12.png 12w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/ancestralidade.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Quando se trata da minha hist\u00f3ria, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o falar da for\u00e7a feminina e ancestralidade presente.<br \/>\nA oralidade \u00e9 algo muito presente na cultura ancestral e na minha fam\u00edlia. Come\u00e7ou com os antepassados que passou para minha bisav\u00f3 \u00edndigena, que ensinou para minha av\u00f3 cabocla Julia e ent\u00e3o para a minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Fui criada por uma baiana arretada, Dona J\u00f4, que apesar das dificuldades nunca deu o bra\u00e7o a torcer, mesmo trabalhada no azeite de dend\u00ea, nunca perde sua \u201ccalmomila\u201d, a n\u00e3o ser que mexa com suas crias. Quando chegou na Mar\u00e9 trouxe todo seu saber, criando ra\u00edzes permanentes e gerando quatro frutos. Nos tornamos sementes e hoje continuamos semeando o territ\u00f3rio. Sou filha ca\u00e7ula de quatro irm\u00e3s.<\/p>\n<p>O conhecimento e a conex\u00e3o com plantas e ervas, a linhagem de curandeiras, est\u00e1 presente na hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia. A partir desse conv\u00edvio, entendi o que era o mundo e qual era meu papel nele. Quando reflito sobre minha linhagem ancestral, espiritual e gen\u00e9tica vejo que tamb\u00e9m estou ligada a um pensar que vem de \u00c1frica e da ideologia de ser comunidade e n\u00e3o somente eu. Ao mesmo tempo que sou corpo individual, sou corpo coletivo por trazer essa heran\u00e7a no meu DNA. Isso tamb\u00e9m aprendi na umbanda, pr\u00e1tica religiosa que faz parte da minha vida desde o nascimento.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-100-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-1.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-1.mp3\">https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-1.mp3<\/a><\/audio>\n<p>A m\u00e3e Carol, minha m\u00e3e de santo, \u00e9 uma mulher forte, bondosa e altru\u00edsta. Conversamos bastante sobre espiritualidade e a import\u00e2ncia da conex\u00e3o com o universo. Podemos afirmar que o orix\u00e1 \u00e9 a pr\u00f3pria natureza, a energia, a for\u00e7a oriunda da \u00e1gua, da terra, do ar e do fogo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-211\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas-300x300.png 300w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas-150x150.png 150w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas-768x768.png 768w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas-12x12.png 12w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/poder-das-plantas.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>\u201cVejo a umbanda como amor, luz, semeadora da paz, uni\u00e3o e empatia, sempre visando a caridade, ajudar ao pr\u00f3ximo e isso mescla com o cuidar da natureza e viver em comunidade. Para melhorar o lugar em que vivemos precisamos respeitar e cuidar dessas for\u00e7as.\u201d &#8211; M\u00e3e Carol<\/p>\n<p>Precisamos descolonizar a ideia de que somos seres superiores e isso nos d\u00e1 aval para desconsiderar outras formas de vida ao nosso redor.<\/p>\n<p>A Europa segue a filosofia do penso, logo existo, colocando-se em primeiro lugar. Quando falamos de \u00c1frica, seguimos a filosofia ubuntu, sou porque somos, que tudo se d\u00e1 a partir da coletividade. Somos a natureza. Tudo \u00e9 um ciclo. N\u00f3s fazemos parte desse todo e se n\u00e3o cuidamos, estamos nos descuidando tamb\u00e9m. Podemos usar o saber ancestral para transformar. Mesmo tendo essa ideologia, ainda demonizam as religi\u00f5es de matrizes africanas tornando a intoler\u00e2ncia algo muito presente.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-100-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-2.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-2.mp3\">https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Audio-2.mp3<\/a><\/audio>\n<p><strong>\u201c\u00c9 terr\u00edvel o que est\u00e1 acontecendo, nossa sociedade precisa entender que n\u00e3o somos o sal da terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; h\u00e1 muita vida al\u00e9m da gente, n\u00e3o fazemos falta na biodiversidade. Pelo contr\u00e1rio. Desde pequenos, aprendemos que h\u00e1 lista de esp\u00e9cies em extin\u00e7\u00e3o. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a Covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo deslocado de maneira absoluta desse organismo que \u00e9 a Terra, vivendo numa abstra\u00e7\u00e3o civilizat\u00f3ria que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, exist\u00eancia e de h\u00e1bitos.\u201d Ailton Krenak &#8211; O Amanh\u00e3 N\u00e3o Est\u00e1 \u00c0 Venda<\/strong><\/p>\n<p>No contexto das favelas cabe mencionar os ataques amplamente noticiados na imprensa em setembro de 2017 onde terreiros e outros espa\u00e7os vinculados ao Candombl\u00e9 ou \u00e0 Umbanda, atribu\u00eddos a grupos que controlam a venda de drogas nas favelas. Segundo a pesquisadora Christina Vital da Cunha, da Universidade Federal Fluminense, integrantes desses grupos v\u00eam coibindo a pr\u00e1tica dessas religi\u00f5es nas favelas cariocas h\u00e1 mais de dez anos, proibindo at\u00e9 mesmo o uso dos trajes brancos, o que est\u00e1 levando l\u00edderes e seguidores a deixar as localidades onde s\u00e3o amea\u00e7ados e perseguidos.<\/p>\n<p>No caso da Mar\u00e9, apenas 1.349 pessoas maiores de 15 anos foram declaradas seguidoras dessas cren\u00e7as, sendo 786 (0,7%) esp\u00edritas ou espiritualistas e 563 (0,5%) de denomina\u00e7\u00f5es afro-brasileiras. Essa baixa representa\u00e7\u00e3o pode ser consequ\u00eancia da imensa press\u00e3o contra o espiritismo e as religi\u00f5es afro-brasileiras promovida nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Para me aprofundar na pesquisa e registro dessa mem\u00f3ria, constru\u00ed um formul\u00e1rio do google forms que enviei entre os dias 1 a 15 de Novembro a 50 pessoas, todas moradoras dessa imensa Mar\u00e9. Percebi que os principais resultados est\u00e3o ligados ao racismo.<\/p>\n<p>O racismo religioso no territ\u00f3rio afeta diretamente na vida dos praticantes, gerando medo e desconforto. Mesmo com o passar dos anos ainda \u00e9 algo presente na rotina de quem vive a religi\u00e3o. Isso \u00e9 resultado de uma hist\u00f3ria dolorosa, onde nossos ancestrais, escravizados e toda sua cultura foram e s\u00e3o at\u00e9 hoje desvalorizados. Algo ainda enraizado no Brasil, que \u00e9 um dos pa\u00edses com a maior popula\u00e7\u00e3o preta e tudo que vem de n\u00f3s \u00e9 depreciado.<\/p>\n<p>O Racismo se manifesta quando um indiv\u00edduo interfere na liberdade de cren\u00e7a e express\u00e3o de outra pessoa, praticando diversas viol\u00eancias como: ataques f\u00edsicos, morais, escrita, gestual, intelectuais e verbais, seja por insulto ou fazendo \u201cpiadas\u201d do tipo &#8220;Chuta que \u00e9 macumba&#8221;.<\/p>\n<p>Existem diversos casos recorrentes de terreiros depredados, denunciados, irm\u00e3os sendo machucados, pais e m\u00e3es de santo linchados na rua, casas de artigos religiosos de religi\u00f5es de matrizes africanas destru\u00eddas. Assim como simplesmente andar de roupa branca pode te tornar alvo do racismo. \u00c9 tratado como racismo e n\u00e3o preconceito religioso, porque \u00e9 evidente as persegui\u00e7\u00f5es \u00e0s nossas ra\u00edzes. Segundo o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) as den\u00fancias durante 2018, as religi\u00f5es mais atingidas s\u00e3o a Umbanda e o Candombl\u00e9.<\/p>\n<p>Tendo em mente que essas religi\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o proselitistas, ou seja, n\u00e3o tem como ideal converter pessoas, mas sim de aconchegar quem a procura.<\/p>\n<p>Os dois grupos religiosos predominantes no conjunto da Mar\u00e9 s\u00e3o os cat\u00f3licos (47,2%, pr\u00f3ximo ao da cidade do Rio de Janeiro, que \u00e9 de 51,1%,) e os evang\u00e9licos (s\u00e3o 21,2% na Mar\u00e9 e, na cidade, 23,4%). Conforme o Censo 2010 do IBGE.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, cresce a presen\u00e7a de pessoas brancas nos cultos afro-brasileiros, ao mesmo tempo em que os negros os moradores das favelas e principais atores sociais dessas manifesta\u00e7\u00f5es religiosas no passado veem diminuir seus espa\u00e7os de poder, participa\u00e7\u00e3o e elabora\u00e7\u00e3o.Tais atitudes inibem os praticantes a assumirem seu pertencimento ao ax\u00e9, mascarando assim sua verdade com outra religi\u00e3o ou buscando outros lugares fora do territ\u00f3rio, onde se sentem livres para praticar sua cren\u00e7a.<\/p>\n<p><strong>\u201cEssa deprecia\u00e7\u00e3o da palavra macumba, essa desqualifica\u00e7\u00e3o que essa palavra sofreu e que de certa maneira acaba inclusive, pegando muita gente que \u00e9 da linha da macumba que n\u00e3o quer que seja dito isso. Eu conhe\u00e7o muita gente que diz \u2018 Olha, eu n\u00e3o sou macumbeiro, eu sou esp\u00edrita ou n\u00e3o sou macumbeiro, sou outra coisa.\u2019 Ent\u00e3o disputar esse termo, mostra como houve uma desqualifica\u00e7\u00e3o no campo simb\u00f3lico desses termos, que a rigor \u00e9 a desqualifica\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas, que a rigor \u00e9 a desqualifica\u00e7\u00e3o desses saberes com potenciais capazes de produzir incessante beleza, incessantemente o olhar original sobre o mundo, isso contamina at\u00e9 mesmo quem circula em torno desses saberes.<br \/>\nEnt\u00e3o me parece que essa desqualifica\u00e7\u00e3o, ela flerta com essa quest\u00e3o que o Fannon levanta, que \u00e9 a quest\u00e3o da vitima do racismo acabar de certa maneira, incorporando a inferioridade da sua pr\u00f3pria cultura que \u00e9 a tarefa medonha da educa\u00e7\u00e3o. Por isso temos a tarefa urgente de deseducar. Deseducar para que a gente possa viver a experi\u00eancia pol\u00edtica e po\u00e9tica da liberdade.\u201d<br \/>\nLuiz Ant\u00f4nio Simas &#8211; A ci\u00eancia das Macumbas<\/strong><\/p>\n<p>Para n\u00e3o permitir que a sociedade que imp\u00f5e, nos paralise por medo ou receios de julgamentos, precisamos nos cuidar, mas para mudar o mundo precisamos come\u00e7ar por n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Todos esses fatores est\u00e3o ligados ao n\u00e3o reconhecimento de nossas ra\u00edzes, da nossa ancestralidade, que equivocadamente achamos que est\u00e1 ligada \u00e0 religi\u00e3o, quando na verdade se trata da nossa linhagem familiar, da identidade hist\u00f3rica. Nossa linhagem ancestral, espiritualmente e geneticamente falando, est\u00e3o interligadas, essa heran\u00e7a est\u00e1 cravada em nosso corpo. \u00c9 de extrema import\u00e2ncia assumir nossos antepassados, sabermos de onde viemos, porque estamos aqui e entender para onde vamos, assim temos autonomia e for\u00e7a para combater as mazelas cotidianas.<\/p>\n<p>Os dados do Censo Mar\u00e9 afirma que 52,9% das pessoas residentes no territ\u00f3rio foram declaradas como pardas, 36,6% como brancas e 9,2% como pretas.A cor parda, mesmo que por influ\u00eancia da naturalidade em outra regi\u00e3o do pa\u00eds, n\u00e3o exclui a descend\u00eancia em potencial da \u00e1rvore afrobrasileira.<\/p>\n<p>As favelas cariocas t\u00eam uma forte presen\u00e7a de pretos, em sua maioria naturais do Rio de Janeiro e nordestinos, na Mar\u00e9 n\u00e3o \u00e9 diferente. Com o desleixo do poder p\u00fablico em garantir direitos \u00e0 moradia de qualidade, essas pessoas se organizam para garantir seus espa\u00e7os e surge ent\u00e3o a favela. Com a constru\u00e7\u00e3o da Avenida Brasil, acontece uma imensa imigra\u00e7\u00e3o de nordestinos para o territ\u00f3rio, aumentando a Mar\u00e9 e a transformando em bairro.<\/p>\n<p>Somos descendentes do povo da terra, que veio do sert\u00e3o. A partir de um \u00eaxodo rural, trouxeram toda sua for\u00e7a e saber ancestral para o territ\u00f3rio. Tudo se deu atrav\u00e9s da mobiliza\u00e7\u00e3o e garra de nossos pais e av\u00f3s e a cada dia esse legado vem se fortificando.<\/p>\n<p>Fomos n\u00f3s quem constru\u00edmos nossas moradias, com a imobiliza\u00e7\u00e3o e for\u00e7a conseguimos o acesso a \u00e1gua, energia, ao asfalto. O poder dos antepassados \u00e9 inquestion\u00e1vel, nossa heran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 essa for\u00e7a, mas tamb\u00e9m toda essa falta de direito que afeta nosso ambiente e nossas vidas todos os dias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-209\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/racismoambiental-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/racismoambiental-300x300.png 300w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/racismoambiental-150x150.png 150w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/racismoambiental-12x12.png 12w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/racismoambiental.png 340w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Convivemos com a priva\u00e7\u00e3o de acesso a um ambiente sadio desde a coloniza\u00e7\u00e3o. Tendo em mente as persegui\u00e7\u00f5es e a desumaniza\u00e7\u00e3o dos corpos pretos, o lugar em que vivemos tamb\u00e9m sofre<br \/>\ncom mais uma vertente do racismo, o ambiental.<\/p>\n<p>Segundo a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos, todos t\u00eam de estar assegurados de sa\u00fade, bem estar, alimenta\u00e7\u00e3o, alojamento e acesso a servi\u00e7os sociais necess\u00e1rios. Infelizmente, essa n\u00e3o \u00e9<br \/>\na realidade de muitos favelados.<\/p>\n<p>A Mar\u00e9 \u00e9 cercada por tr\u00eas principais vias expressas do Rio de Janeiro: Linha Vermelha, Linha Amarela e Avenida Brasil. Assim somos prejudicados com a polui\u00e7\u00e3o sonoras e polui\u00e7\u00e3o do ar, trazendo diversas doen\u00e7as f\u00edsicas e mentais para os moradores.<\/p>\n<p>Outros desafios cotidianos s\u00e3o: a falta de saneamento b\u00e1sico, recorrentes faltas de \u00e1gua, esgoto a c\u00e9u aberto, coletas de lixo apenas em algumas partes do territ\u00f3rio, constru\u00e7\u00f5es irregulares, diminui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas verdes, entre outros. Em 2010 uma obra que custou R$ 20 milh\u00f5es, a fim de preparar a cidade para as Olimp\u00edadas, puseram tapumes cercando todas as 17 favelas da Mar\u00e9, nos escondendo do restante da cidade, afirmando que nosso territ\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 uma \u00e1rea maravilhosa.<\/p>\n<p>Essa verba poderia trazer melhorias significativas para a favela, mas o objetivo sempre foi o mesmo: invisibilizar, ocultar e privatizar nossos direitos enquanto camufla e n\u00e3o resolvem o real problema.<\/p>\n<p>O poder p\u00fablico erra ao fazer planejamentos para a favela sem ouvir a favela. Como exemplo, temos as escolas no Salsa e Merengue, que foram constru\u00eddas em uma \u00e1rea de lazer, arborizada. Deixando os moradores daquela regi\u00e3o sem um bom espa\u00e7o de entretenimento. A Cl\u00ednica da Fam\u00edlia no Pinheiro, tem um esgoto a c\u00e9u aberto atr\u00e1s da unidade, o que \u00e9 um agente nocivo a sa\u00fade, sendo tamb\u00e9m estruturada em uma \u00e1rea de lazer.<\/p>\n<p>Esses espa\u00e7os saud\u00e1veis est\u00e3o cada vez mais escassos. N\u00e3o digo que sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o seja ruim, mas a responsabilidade de n\u00e3o pensar novas \u00e1reas. Essa falta de arboriza\u00e7\u00e3o gera ondas de calor, que vem aumentando ao decorrer dos anos, nos atingindo de uma forma agressiva.<\/p>\n<p>O que algumas pessoas alegam ser privil\u00e9gio, n\u00f3s chamamos de direitos m\u00ednimos e necess\u00e1rios para uma viv\u00eancia digna e segura. Quando falamos de racismo ambiental na Mar\u00e9, a primeira coisa que destaca-se \u00e9 a hierarquia social. Isso sempre aconteceu para a manuten\u00e7\u00e3o do racismo. Esses descanso nos afetam diretamente e devemos ter em mente que acontece por aus\u00eancia de direitos e n\u00e3o por culpa do morador.<\/p>\n<p>Nos comunicar de forma direta \u00e9 essencial, criar uma articula\u00e7\u00e3o social favelada, nos inspirando na nossa hist\u00f3ria, que tem uma ci\u00eancia ancestral muito caracter\u00edstica da favela e devemos dar seguimento a isso. Nos organizamos em um lugar que n\u00e3o havia pretens\u00e3o de cuidado p\u00fablico e teve resist\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9 na favela que achamos a solu\u00e7\u00e3o. Ainda que nossa garra seja indiscut\u00edvel, precisamos continuar exigindo respeito e direitos. Sem a viabiliza\u00e7\u00e3o, conseguimos realizar, com ela podemos fazer muito mais. \u00c9 fundamental desconstruirmos a imagem de que a favela n\u00e3o se importa com o meio ambiente.<\/p>\n<p>Entendendo que meio ambiente n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 florestas distantes, mas o lugar que vivemos, onde devemos cuidar e zelar pelo mesmo. Esses espa\u00e7os verdes trazem diversos benef\u00edcios e aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, que \u00e9 o mar, o ar, voc\u00ea, a planta.<\/p>\n<p>Hoje a principal raz\u00e3o para o cultivo de plantas no territ\u00f3rio \u00e9 a decora\u00e7\u00e3o do ambiente dom\u00e9stico, conforme declarado em 89,3% dos domic\u00edlios. Contudo, n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel que a finalidade medicinal seja a principal motiva\u00e7\u00e3o em 6,2% dos lares da Mar\u00e9, mais at\u00e9 do que a culin\u00e1ria ou alimenta\u00e7\u00e3o, que alcan\u00e7am, como motivo principal, menos de 1% dos domic\u00edlios. 6% \u00e9 pouco pra tanto legado de gente que veio pra c\u00e1.<\/p>\n<p>Nossos ancestrais nos ensinam o conhecimento da terra, do plantar e precisamos nos apropriar desse saber. Criar uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com as plantas e enraizar no dia a dia.<br \/>\nPlantar \u00e9 tudo, \u00e9 a base para o bem estar. A partir dessa viv\u00eancia surgem novos entendimentos: a conscientiza\u00e7\u00e3o que tudo que consumimos torna-se parte da gente de alguma forma.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-210\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar-300x300.png 300w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar-150x150.png 150w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar-768x768.png 768w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar-12x12.png 12w, https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/segalimentar.png 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>Cultivar nossos pr\u00f3prios alimentos nos d\u00e1 autonomia de fazer escolhas seguras e mais saud\u00e1veis, muitas coisas s\u00e3o chamadas de comida mas n\u00e3o s\u00e3o alimentos. A agricultura \u00e9 escassa, n\u00e3o \u00e9 pop mas \u00e9 um direito da favela, assim como comer bem \u00e9 um ato pol\u00edtico. \u00c9 importante entender a soberania alimentar e nos favorecer dela.<br \/>\nAs plantas que nos alimenta fazem parte do nosso ser e nos ajudam a compor as energias<br \/>\nf\u00edsicas e espirituais.<\/p>\n<p>Podemos usar a medicina natural ancestral para nos cuidar com banhos, ch\u00e1s, na alimenta\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, purifica\u00e7\u00e3o, limpeza de ambientes e renovar energias. Muitas pessoas usam esse poder ao seu favor e n\u00e3o sabem como isso afeta positivamente na sua vida.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-100-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/auido-3.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/auido-3.mp3\">https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/auido-3.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Atualmente existe a necessidade de retomar os cuidados com a natureza e ter novas<br \/>\nvis\u00f5es, buscando o saber sagrado ancestral que tem a for\u00e7a para resolver os desafios dessa nova jornada.<br \/>\nUm adinkra chamado Sankofa, simbolizado por um p\u00e1ssaro africano de duas cabe\u00e7as, deixa a mensagem: \u201cnunca \u00e9 tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou atr\u00e1s\u201d. Quer dizer que, podemos voltar ao passado, aprender com nossos antepassados e ressignificar o presente. Transformar o hoje para melhorar o amanh\u00e3.<\/p>\n<p>Os ancestrais veem o ser humano como parte da natureza, n\u00e3o somos seres superiores, tudo est\u00e1 interligado e tamb\u00e9m fazemos parte desse sagrado. Precisamos usar a oralidade para superar esses obst\u00e1culos, passar conhecimento aos nossos e garantir o equil\u00edbrio entre comunidade urbana e natureza. N\u00e3o existe separa\u00e7\u00e3o entre homem e a natureza, tendo em mente que plantas e animais s\u00e3o parte de n\u00f3s.<\/p>\n<p><strong><br \/>\n\u201cSem ervas n\u00e3o tem orix\u00e1, sem orix\u00e1 n\u00e3o tem ervas\u201d &#8211; M\u00e3e Celina de Xang\u00f4<\/strong><\/p>\n<p>Quando falamos de natureza, no meu aprendizado, os orix\u00e1s reinam. Cada um representa um elemento, uma for\u00e7a natural, quando cuidamos e preservamos ela, estamos fazendo o mesmo com eles e com n\u00f3s mesmos. Orix\u00e1 \u00e9 refer\u00eancia de for\u00e7a e amor, deixam o legado de viver em coletividade, de forma democr\u00e1tica onde o bem estar do coletivo \u00e9 a prioridade, n\u00e3o o individual.<\/p>\n<p>O modo de vida que levavam se mostra necess\u00e1rio e urgente a ser vivenciado no agora, para nos salvarmos desse colapso clim\u00e1tico. \u00c9 preciso retomar aos h\u00e1bitos sagrados. Devemos descolonizar nossos costumes e pensamentos, nos apropriar do verdadeiro ser, para alcan\u00e7armos o sonhado futuro e transformar tudo ao nosso redor.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-100-4\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/audio-4.mp3?_=4\" \/><a href=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/audio-4.mp3\">https:\/\/memoriaambiental.org\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/audio-4.mp3<\/a><\/audio>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autora: Leona Kal\u00ed A am\u00e1vel mem\u00f3ria que venho compartilhar \u00e9 sobre o meu primeiro contato com as plantas. Todo esse conhecimento, a conex\u00e3o, a linhagem de curandeiras, est\u00e1 presente na hist\u00f3ria da minha fam\u00edlia. A partir desse conv\u00edvio, entendi o que era o mundo e qual era meu papel nele. Quando reflito sobre minha linhagem &hellip; <a href=\"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/curabitur-eget-eros-non-nibh-luctus-2\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">VERDE DEMANDA<\/span><\/a><\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":211,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"paises":[],"ano_de_postagem":[],"ano_do_acontecimento":[],"class_list":["post-100","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-memoria"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=100"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":320,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/100\/revisions\/320"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=100"},{"taxonomy":"paises","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/paises?post=100"},{"taxonomy":"ano_de_postagem","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/ano_de_postagem?post=100"},{"taxonomy":"ano_do_acontecimento","embeddable":true,"href":"https:\/\/memoriaambiental.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/ano_do_acontecimento?post=100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}