VERDE DEMANDA, por Leona Kali

Maré, Rio de Janeiro, Brasil
A amável memória que venho compartilhar é sobre o meu primeiro contato com as plantas. O conhecimento e a conexão com plantas e ervas, a linhagem de curandeiras, está presente na história da minha família. A partir desse convívio, entendi o que era o mundo e qual era meu papel nele. Quando reflito sobre minha linhagem ancestral, espiritual e genética vejo que também estou ligada a um pensar que vem de África e da ideologia de ser comunidade e não somente eu. Ao mesmo tempo que sou corpo individual, sou corpo coletivo por trazer essa herança no meu DNA. Isso também aprendi na umbanda, prática religiosa que faz parte da minha vida desde o nascimento.



A amável memória que venho compartilhar é sobre o meu primeiro contato com as plantas. Todas as manhãs quando acordava, ia atrás do afago de mãe e sempre a encontrava do mesmo jeito: na varanda, regando e conversando com as plantas, as pernas na forma do número quatro, sustentando toda delicadeza e cuidado em uma perna só. 

Ficava na janela olhando, era nítido a felicidade e satisfação florida em seu rosto, a paz que aquele momento trazia. Era admirável ver o quanto elas se entendiam, como eram amigas. Era um dos meus momentos favoritos. 

Minha mãe me chamava para perto e eu ia toda serelepe, pisando nas folhas mortas e na água gelada que dava um arrepio na pele. E então começava os ensinamentos: como cuidar, como regar, quais eram para chá, quais eram para banhos, que afastam dor, tristeza, insônia, qual planta era de qual orixá, cada uma com sua finalidade. Era como integrar um clube secreto onde só nós sabiamos nos comunicar, com elas aprendi o significado de amor e cuidado.

Quando se trata da minha história, é impossível não falar da força feminina e ancestralidade presente. A oralidade é algo muito presente na cultura ancestral e na minha família. Começou com os antepassados que passou para minha bisavó índigena, que ensinou para minha avó cabocla Julia e então para a minha mãe. 

Fui criada por uma baiana arretada, Dona Jô, que apesar das dificuldades nunca deu o braço a torcer, mesmo trabalhada no azeite de dendê, nunca perde sua “calmomila”, a não ser que mexa com suas crias. Quando chegou na Maré trouxe todo seu saber, criando raízes permanentes e gerando quatro frutos. Nos tornamos sementes e hoje continuamos semeando o território. Sou filha caçula de quatro irmãs. 


O conhecimento e a conexão com plantas e ervas, a linhagem de curandeiras, está presente na história da minha família. A partir desse convívio, entendi o que era o mundo e qual era meu papel nele. Quando reflito sobre minha linhagem ancestral, espiritual e genética vejo que também estou ligada a um pensar que vem de África e da ideologia de ser comunidade e não somente eu. Ao mesmo tempo que sou corpo individual, sou corpo coletivo por trazer essa herança no meu DNA. Isso também aprendi na umbanda, prática religiosa que faz parte da minha vida desde o nascimento. 

→ Áudio 1 Plantas

A mãe Carol, minha mãe de santo, é uma mulher forte, bondosa e altruísta. Conversamos bastante sobre espiritualidade e a importância da conexão com o universo. Podemos afirmar que o orixá é a própria natureza, a energia, a força oriunda da água, da terra, do ar e do fogo. 

“Vejo a umbanda como amor, luz, semeadora da paz, união e empatia, sempre visando a caridade, ajudar ao próximo e isso mescla com o cuidar da natureza e viver em comunidade. Para melhorar o lugar em que vivemos precisamos respeitar e cuidar dessas forças.” - Mãe Carol

Precisamos descolonizar a ideia de que somos seres superiores e isso nos dá aval para desconsiderar outras formas de vida ao nosso redor.

A Europa segue a filosofia do penso, logo existo, colocando-se em primeiro lugar. Quando falamos de África, seguimos a filosofia ubuntu, sou porque somos, que tudo se dá a partir da coletividade. Somos a natureza. Tudo é um ciclo. Nós fazemos parte desse todo e se não cuidamos, estamos nos descuidando também. Podemos usar o saber ancestral para transformar. Mesmo tendo essa ideologia, ainda demonizam as religiões de matrizes africanas tornando a intolerância algo muito presente.

→ Áudio 2  Raça e Espiritualidade

 É terrível o que está acontecendo, nossa sociedade precisa entender que não somos o sal da terra. Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário. Desde pequenos, aprendemos que há lista de espécies em extinção. Enquanto essas listas aumentam, os humanos proliferam, destruindo florestas, rios e animais. Somos piores que a Covid-19. Esse pacote chamado de humanidade vai sendo deslocado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, existência e de hábitos.” Ailton Krenak - O Amanhã Não Está À Venda


No contexto das favelas cabe mencionar os ataques amplamente noticiados na imprensa em setembro de 2017 onde terreiros e outros espaços vinculados ao Candomblé ou à Umbanda, atribuídos a grupos que controlam a venda de drogas nas favelas. Segundo a pesquisadora Christina Vital da Cunha, da Universidade Federal Fluminense, integrantes desses grupos vêm coibindo a prática dessas religiões nas favelas cariocas há mais de dez anos, proibindo até mesmo o uso dos trajes brancos, o que está levando líderes e seguidores a deixar as localidades onde são ameaçados e perseguidos.

No caso da Maré, apenas 1.349 pessoas maiores de 15 anos foram declaradas seguidoras dessas crenças, sendo 786 (0,7%) espíritas ou espiritualistas e 563 (0,5%) de denominações afro-brasileiras. Essa baixa representação pode ser consequência da imensa pressão contra o espiritismo e as religiões afro-brasileiras promovida nas últimas décadas.

Para me aprofundar na pesquisa e registro dessa memória, construí um formulário do google forms que enviei entre os dias 1 a 15 de Novembro a 50 pessoas, todas moradoras dessa imensa Maré. Percebi que os principais resultados estão ligados ao racismo. 

O racismo religioso no território afeta diretamente na vida dos praticantes, gerando medo e desconforto. Mesmo com o passar dos anos ainda é algo presente na rotina de quem vive a religião. Isso é resultado de uma história dolorosa, onde nossos ancestrais, escravizados e toda sua cultura foram e são até hoje desvalorizados. Algo ainda enraizado no Brasil, que é um dos países com a maior população preta e tudo que vem de nós é depreciado. 

O Racismo se manifesta quando um indivíduo interfere na liberdade de crença e expressão de outra pessoa, praticando diversas violências como: ataques físicos, morais, escrita, gestual, intelectuais e verbais, seja por insulto ou fazendo “piadas” do tipo "Chuta que é macumba".


 Existem diversos casos recorrentes de terreiros depredados, denunciados, irmãos sendo machucados, pais e mães de santo linchados na rua, casas de artigos religiosos de religiões de matrizes africanas destruídas. Assim como simplesmente andar de roupa branca pode te tornar alvo do racismo. É tratado como racismo e não preconceito religioso, porque é evidente as perseguições às nossas raízes. Segundo o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) as denúncias durante 2018, as religiões mais atingidas são a Umbanda e o Candomblé. 
 
Tendo em mente que essas religiões não são proselitistas, ou seja, não tem como ideal converter pessoas, mas sim de aconchegar quem a procura. 

Os dois grupos religiosos predominantes no conjunto da Maré são os católicos (47,2%, próximo ao da cidade do Rio de Janeiro, que é de 51,1%,) e os evangélicos (são 21,2% na Maré e, na cidade, 23,4%). Conforme o Censo 2010 do IBGE. 


Então, cresce a presença de pessoas brancas nos cultos afro-brasileiros, ao mesmo tempo em que os negros os moradores das favelas e principais atores sociais dessas manifestações religiosas no passado veem diminuir seus espaços de poder, participação e elaboração.Tais atitudes inibem os praticantes a assumirem seu pertencimento ao axé, mascarando assim sua verdade com outra religião ou buscando outros lugares fora do território, onde se sentem livres para praticar sua crença.  



 “Essa depreciação da palavra macumba, essa desqualificação que essa palavra sofreu e que de certa maneira acaba inclusive, pegando muita gente que é da linha da macumba que não quer que seja dito isso. Eu conheço muita gente que diz ‘ Olha, eu não sou macumbeiro, eu sou espírita ou não sou macumbeiro, sou outra coisa.’ Então disputar esse termo, mostra como houve uma desqualificação no campo simbólico desses termos, que a rigor é a desqualificação das práticas, que a rigor é a desqualificação desses saberes com potenciais capazes de produzir incessante beleza, incessantemente o olhar original sobre o mundo, isso contamina até mesmo quem circula em torno desses saberes.
 Então me parece que essa desqualificação, ela flerta com essa questão que o Fannon levanta, que é a questão da vitima do racismo acabar de certa maneira, incorporando a inferioridade da sua própria cultura que é a tarefa medonha da educação.  Por isso temos a tarefa urgente de deseducar. Deseducar para que a gente possa viver a experiência política e poética da liberdade.”    
Luiz Antônio Simas - A ciência das Macumbas
 

Para não permitir que a sociedade que impõe, nos paralise por medo ou receios de julgamentos, precisamos nos cuidar, mas para mudar o mundo precisamos começar por nós mesmos.

Todos esses fatores estão ligados ao não reconhecimento de nossas raízes, da nossa ancestralidade, que equivocadamente achamos que está ligada à religião, quando na verdade se trata da nossa linhagem familiar, da identidade histórica. Nossa linhagem ancestral, espiritualmente e geneticamente falando, estão interligadas, essa herança está cravada em nosso corpo. É de extrema importância assumir nossos antepassados, sabermos de onde viemos, porque estamos aqui e entender para onde vamos, assim temos autonomia e força para combater as mazelas cotidianas. 

Os dados do Censo Maré afirma que 52,9% das pessoas residentes no território foram declaradas como pardas, 36,6% como brancas e 9,2% como pretas.A cor parda, mesmo que por influência da naturalidade em outra região do país, não exclui a descendência em potencial da árvore afrobrasileira.

As favelas cariocas têm uma forte presença de pretos, em sua maioria naturais do Rio de Janeiro e nordestinos, na Maré não é diferente. Com o desleixo do poder público em garantir direitos à moradia de qualidade, essas pessoas se organizam para garantir seus espaços e surge então a favela. Com a construção da Avenida Brasil, acontece uma imensa imigração de nordestinos para o território, aumentando a Maré e a transformando em bairro.   

Somos descendentes do povo da terra, que veio do sertão. A partir de um êxodo rural, trouxeram toda sua força e saber ancestral para o território. Tudo se deu através da mobilização e garra de nossos pais e avós e a cada dia esse legado vem se fortificando. 

Fomos nós quem construímos nossas moradias, com a imobilização e força conseguimos o acesso a água, energia, ao asfalto. O poder dos antepassados é inquestionável, nossa herança não é só essa força, mas também toda essa falta de direito que afeta nosso ambiente e nossas vidas todos os dias. 

Convivemos com a privação de acesso a um ambiente sadio desde a colonização. Tendo em mente as perseguições e a desumanização dos corpos pretos, o lugar em que vivemos também sofre 
com mais uma vertente do racismo, o ambiental.
  
Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, todos têm de estar assegurados de saúde, bem estar, alimentação, alojamento e acesso a serviços sociais necessários. Infelizmente, essa não é 
a realidade de muitos favelados. 
A Maré é cercada por três principais vias expressas do Rio de Janeiro: Linha Vermelha, Linha Amarela e Avenida Brasil. Assim somos prejudicados com a poluição sonoras e poluição do ar, trazendo diversas doenças físicas e mentais para os moradores. 

Outros desafios cotidianos são: a falta de saneamento básico, recorrentes faltas de água, esgoto a céu aberto, coletas de lixo apenas em algumas partes do território, construções irregulares, diminuição de áreas verdes, entre outros. Em 2010 uma obra que custou R$ 20 milhões, a fim de preparar a cidade para as Olimpíadas, puseram tapumes cercando todas as 17 favelas da Maré, nos escondendo do restante da cidade, afirmando que nosso território não é uma área maravilhosa. 

Essa verba poderia trazer melhorias significativas para a favela, mas o objetivo sempre foi o mesmo: invisibilizar, ocultar e privatizar nossos direitos enquanto camufla e não resolvem o real problema.

O poder público erra ao fazer planejamentos para a favela sem ouvir a favela. Como exemplo, temos as escolas no Salsa e Merengue, que foram construídas em uma área de lazer, arborizada. Deixando os moradores daquela região sem um bom espaço de entretenimento. A Clínica da Família no Pinheiro, tem um esgoto a céu aberto atrás da unidade, o que é um agente nocivo a saúde, sendo também estruturada em uma área de lazer. 

Esses espaços saudáveis estão cada vez mais escassos. Não digo que saúde e educação seja ruim, mas a responsabilidade de não pensar novas áreas. Essa falta de arborização gera ondas de calor, que vem aumentando ao decorrer dos anos, nos atingindo de uma forma agressiva.

O que algumas pessoas alegam ser privilégio, nós chamamos de direitos mínimos e necessários para uma vivência digna e segura. Quando falamos de racismo ambiental na Maré, a primeira coisa que destaca-se é a hierarquia social. Isso sempre aconteceu para a manutenção do racismo. Esses descanso nos afetam diretamente e devemos ter em mente que acontece por ausência de direitos e não por culpa do morador.

 Nos comunicar de forma direta é essencial, criar uma articulação social favelada, nos inspirando na nossa história, que tem uma ciência ancestral muito característica da favela e devemos dar seguimento a isso. Nos organizamos em um lugar que não havia pretensão de cuidado público e teve resistência.

 É na favela que achamos a solução. Ainda que nossa garra seja indiscutível, precisamos continuar exigindo respeito e direitos. Sem a viabilização conseguimos realizar, com ela podemos fazer muito mais. É fundamental desconstruirmos a imagem de que a favela não se importa com o meio ambiente.

Entendendo que meio ambiente não é só florestas distantes, mas o lugar que vivemos, onde devemos cuidar e zelar pelo mesmo. Esses espaços verdes trazem diversos benefícios e aproximação à natureza, que é o mar, o ar, você, a planta.

Hoje a principal razão para o cultivo de plantas no território é a decoração do ambiente doméstico, conforme declarado em 89,3% dos domicílios. Contudo, não é desprezível que a finalidade medicinal seja a principal motivação em 6,2% dos lares da Maré, mais até do que a culinária ou alimentação, que alcançam, como motivo principal, menos de 1% dos domicílios. 6% é pouco pra tanto legado de gente que veio pra cá.

Nossos ancestrais nos ensinam o conhecimento da terra, do plantar e precisamos nos apropriar desse saber. Criar uma relação íntima com as plantas e enraizar no dia a dia. Plantar é tudo, é a base para o bem estar. A partir dessa vivência surgem novos entendimentos: a conscientização que tudo que consumimos torna-se parte da gente de alguma forma. 

Cultivar nossos próprios alimentos nos dá autonomia de fazer escolhas seguras e mais saudáveis, muitas coisas são chamadas de comida mas não são alimentos. A agricultura é escassa, não é pop mas é um direito da favela, assim como comer bem é um ato político. É importante entender a soberania alimentar e nos favorecer dela.  As plantas que nos alimenta fazem parte do nosso ser e nos ajudam a compor as energias físicas e espirituais.

Podemos usar a medicina natural ancestral para nos cuidar com banhos, chás, na alimentação diária, purificação, limpeza de ambientes e renovar energias. Muitas pessoas usam esse poder ao seu favor e não sabem como isso afeta positivamente na sua vida. 

→ Audio 3 Mobilizaçao Favelada

Atualmente existe a necessidade de retomar os cuidados com a natureza e ter novas visões, buscando o saber sagrado ancestral que tem a força para resolver os desafios dessa nova jornada. Um adinkra chamado Sankofa, simbolizado por um pássaro africano de duas cabeças, deixa a mensagem: “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou atrás”. Quer dizer que, podemos voltar ao passado, aprender com nossos antepassados e ressignificar o presente. Transformar o hoje para melhorar o amanhã.  

Os ancestrais veem o ser humano como parte da natureza, não somos seres superiores, tudo está interligado e também fazemos parte desse sagrado. Precisamos usar a oralidade para superar esses obstáculos, passar conhecimento aos nossos e garantir o equilíbrio entre comunidade urbana e natureza. Não existe separação entre homem e a natureza, tendo em mente que plantas e animais são parte de nós.

“Sem ervas não tem orixá, sem orixá não tem ervas” - Mãe Celina de Xangô

 Quando falamos de natureza, no meu aprendizado, os orixás reinam. Cada um representa um elemento, uma força natural, quando cuidamos e preservamos ela, estamos fazendo o mesmo com eles e com nós mesmos. Orixá é referência de força e amor, deixam o legado de viver em coletividade, de forma democrática onde o bem estar do coletivo é a prioridade, não o individual. 

O modo de vida que levavam se mostra necessário e urgente a ser vivenciado no agora, para nos salvarmos desse colapso climático. É preciso retomar aos hábitos sagrados.  Devemos descolonizar nossos costumes e pensamentos, nos apropriar do verdadeiro ser, para alcançarmos o sonhado futuro e transformar tudo ao nosso redor.

→  Áudio 4 Conhecimiento Ancestral

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