Espaços de lazer e cultura na Maré, por Suelem Carvalho de Castro

Maré, Rio de Janeiro, Brasil
Os espaços verdes na Maré potencializaram as possibilidades do meu corpo, minha articulação com ele e o território e meu envolvimento com arte. Compartilho uma memória que fala de áreas que não existem mais e que hoje deixam marcado as mudanças no clima, relações de bem viver e de produzir arte.
Na minha infância eu tinha alguns espaços que me permitiram ser expressiva, movimentar meu corpo exercitar minha arte e desenvolver minha imaginação. Este espaço contribuiu para o despertar de um desejo artístico que me move até hoje. lá eu tinha a liberdade de me movimentar de correr,gritar,de ser livre. Neste  lugar  tinha bastante árvore, adultos e muitas criança correndo pra todos os lados. Era um espaço que a gente conseguia dançar, fazer peças, rodas de conversa etc..ter um espaço onde corpos possam falar livremente é extremamente importante para formação de uma pessoa,está ocupando esse lugar foi alimentando um desejo de fazer coisas com meu corpo, de fazer política com este corpo marginalizado,escravizado,julgado,usado e adjetivado. Foi assim que descobri o quanto aquele  lugar era impactante na minha formação como pessoa e como artista (pensando na minha adolescência).

Além de ser um espaço grande e a céu aberto, ainda tinha muitas árvores por todo lugar, que tornava tudo mais fresco, com muita sombra e ajudava na criatividade com relação às brincadeiras pois adorávamos (eu e as outras crianças) subir em árvores.

Minha minha mãe foi a pessoa mais importante neste processo,pois ela me que apresentou este lugar mágico.Ainda trago na minha memória as todas as crianças que cresceram e brincaram comigo naquele lugar.

Este lugar mágico que tanto falo se chama Salsa e Merengue, um dos territórios das 16 favelas do complexo da Maré, uma grande Maré com maravilhosos 140 mil habitantes.

Em 1996, tempestades causaram deslizamentos e alagamentos que mataram 200 pessoas e deixaram mais de 30 mil desabrigadas na cidade do Rio de Janeiro. Historicamente, os pobres foram e são os que mais sofrem com a falta de uma política pública de Habitação e Saneamento Básico – e serviços essenciais, como escoamento das águas pluviais, coleta de lixo e abastecimento de água potável. Alguns dos desabrigados foram alocados num terreno em torno do Ciep Ministro Gustavo Capanema, na Vila dos Pinheiros, uma das 16 favelas da Maré.Para assentar essas pessoas, foram utilizadas barracas do Exército e logo depois veio a construção de alojamentos provisórios. Esses espaços construídos pelo Governo Municipal foram apelidados de Kinder Ovo –  uma alusão ao ovo de chocolate muito pequeno e popular naquele período. Cada alojamento reunia 25 famílias, com apenas um banheiro e com infraestrutura precária.

Inaugurado em início de 2000 como um desses espaços para assentar essas famílias do Kinder Ovo, o Conjunto Novo Pinheiro foi logo chamado de Salsa e Merengue numa referência a uma novela da época. Mas o espaço não conseguiu oferecer moradia para todas as famílias desabrigadas, a maioria foi para Nova Sepetiba e outras ficaram nos alojamentos à espera da construção de novas casas  – que seriam construídas atrás do Ciep Ministro Gustavo Capanema, na Vila dos Pinheiros.

No dia 26 de junho de 2000, a Polícia Militar derrubou os últimos alojamentos provisórios restantes por determinação da Prefeitura, com justificativa de dar fim às invasões que vinham ocorrendo no Kinder Ovo. As  famílias receberam aluguel social por quatro anos até a construção das casas, aquelas que foram construídas atrás do Ciep, que ficaram conhecidas como Marrocos. 

Marrocos, Salsa e Merengue na Maré e Nova Sepetiba, na zona Oeste, foram os novos endereços das famílias desabrigadas pela chuva de 1996.
 
Quando o Salsa e Merengue foi construído havia várias praças, mas com a construção das escolas municipais e ocupações, os espaços de lazer sumiram. Apesar de ser construído pelo Governo Municipal, o Salsa e Merengue não é legalizado por falta de autorização da Marinha, pela proximidade com a Baía de Guanabara. Isso é contado por Washington Luiz da Silva, de 59 anos, liderança local. “O Salsa nasce do projeto Rio Cidade, com o aterramento do mangue. Veio gente das favelas da Galinha, Beira Rio e Varginha”, expõe. O morador reclama que o local sofre com a falta de carteiro e com o esgoto a céu aberto, devido à tubulação ser pequena para comportar a  população.

Fotos de como o salsa esta hoje.


“ter um espaço onde eu possa apresentar meu trabalho,pra mim é muito gratificante porquê as vezes, só através desse espaço conseguimos mostrar a proporção  de talentos que existe aqui na maré. Estamos acostumados a ver a maré como uma área de risco mas com os espaços culturais vemos como um lugar de potência, resistência e resistência”. 

este é um relato de uma moradora aqui da maré. ela fez um trabalho em um dos espaços de lazer que existem aqui,este espaço se chama parque ecológico. foi uma peça teatral que se chama “Hoje eu não saio daqui”. 


Além de falar das espaços de lazer e cultura, à minha memória fala de ilha de calor. Faltam lugares mais verdes na favela,temos uma alta concentração de edifícios, a não preservação do local e poluição ambiental. Tudo isso desencadeia um processo de diminuição do acesso a lugares seguros de lazer e cultura.

Com a diminuição das áreas verdes, intensificam-se as ilhas de calor e baixam a qualidade de vida dos moradores, nossas vidas são impactadas diariamente pelas mudanças no clima, pois faltam políticas que assegurem o nosso direito ao bem viver.

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