Memórias da Mata, por Helen.

Maré, Rio de Janeiro, Brasil
Memórias da Mata é um mergulho nas lembranças dos moradores da Maré, por meio do qual conhecemos um pouco mais sobre a história do Parque Ecológico da Maré, mais conhecido como A Mata. Esse grande espaço verde guarda em si os vestígios do processo de urbanização do território e faz parte do cotidiano da favela. O propósito deste trabalho é atrair olhares cuidadosos e sensíveis à importância desse lugar para a Maré e seus habitantes, além de ter um papel muito importante na redução dos efeitos das mudanças climáticas no território.
Sobre a pesquisa

A ideia da pesquisa Memórias da Mata ocorreu a partir das minhas inquietações, enquanto moradora da Maré, sobre ter criado recordações somente depois de mais velha e de como eu queria ter vivenciado mais o local, que é o maior espaço verde do Complexo da Maré.

As pessoas que mais me inspiram e me ajudam a construir minhas memórias são os próprios moradores da Maré, principalmente os que residem próximo da Mata. Com isso, foram entrevistadas 5 pessoas, residentes da Vila dos Pinheiros, Salsa e Merengue e Baixa do Sapateiro, de idades entre 22 e 53 anos. Essas pessoas me contaram histórias, percepções, incômodos e sonhos que envolvem o Parque Ecológico da Maré, além das transformações que o local já presenciou ao longo do tempo. Através do olhar dos próprios moradores, passeamos nas memórias e nos sonhos para a Mata.  As sementes de passado e esperança motivam o cuidado e a ocupação desse espaço por meio de mudanças positivas no cotidiano dos moradores e no próprio território.

Minha pesquisa partiu de indicativos afetivos: a escuta de narrativas de pessoas que construíram relações com a Mata, experiências, lembranças, vivências. Meu principal objetivo é trazer olhares, sentimentos e chamar a atenção para a importância do Parque Ecológico. Essa área ajuda na redução dos impactos das mudanças climáticas na Maré, com a diminuição da quantidade de CO2 emitido no ar e os efeitos das ilhas de calor. O trabalho foi desenvolvido através da conexão com os relatos sobre o abandono, a falta de cuidado com o espaço e a sua relação com o cotidiano das pessoas.

Entendendo as transformações da Mata

Figura 1: Parque Ecológico da Maré (fotografia autoral tirada em novembro de 2020)

O Parque Ecológico da Maré, também conhecido como “Mata” pelos moradores, é o maior espaço verde do Complexo da Maré, ocupando cerca de 43 mil metros quadrados. Entre as suas muitas mudanças, a Mata já recebeu diferentes nomes, dentre eles “Ilha do Pinheiro” e “Ilha dos Macacos”. Esse local já foi laboratório da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no início do século XX, passou por processos de aterramento e hoje em dia é utilizado como espaço de lazer pelos moradores.

“Minha mãe sempre conta histórias de que, quando ela era pequena, aqui era tudo água, só tinha a Mata e que lá tinham muitos macacos, que ficava com muito medo porque eles desciam e tentavam pular nos barcos. Esses macacos eram provavelmente de experiências que a Fiocruz fazia nesse espaço. Era um dos únicos lugares arborizados, com vegetação típica de manguezal.” relata Amanda, moradora do Conjunto Pinheiros.

Figura 2: Construção e vegetação da Ilha do Pinheiro (Fonte: http://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/parque-ecologico-dos-pinhheiros-parque-municipal-ecologico-da-mare-ilha-do-pinheiro-2

A partir das memórias dos entrevistados, é possível conhecer um pouco mais sobre o local e entender seus processos de transformação ao longo do tempo, como comenta Marlene, moradora da Vila dos Pinheiros:

“Há 32 anos atrás, a Mata não era devastada, diferente de hoje em dia. Era nosso ponto de lazer nos dias quentes, tinha banquinhos, pessoas que trabalhavam como ambulantes ali e que vendiam sacolé, cuscuz… Íamos sempre lá por causa da sombra, do ar fresco e para as crianças se divertirem. Tinha muitas árvores, tudo coberto, não dava nem pra ver sol de tão fechadinha que eram as árvores com suas folhas. A criançada levava bola, jogos de dama e faziam piquenique junto com suas mães. Lembro de uma fileirinha de crianças subindo a Mata com suas mães e seus cachorrinhos pra brincar na pracinha que tinha lá. Era nossa área de lazer, ninguém queria sair de lá porque era fresquinho e ninguém queria enfrentar o calor.”

Figura 3: Vista do Parque Ecológico da Maré (fotografia autoral tirada em janeiro de 2019)

Atualmente, o local se encontra em situação de abandono, o que afasta muitas pessoas de frequentarem a Mata. Apesar dessa situação, muitos moradores guardam memórias afetivas e de muito carinho do espaço.

“Acho que o que não falta é história, dá até vontade de chorar porque eu lembro que brincava muito lá com meus irmãos, subia na árvore pra pegar jamelão, fazia piquenique, ficava caçando grilo… Só que depois de um tempo o espaço foi ficando mais precário e a gente foi parando de frequentar por causa do abandono do lugar. Lembro que ficava subindo e descendo a mata, meu irmão até já se perdeu lá quando era criança, porque lá pra gente é como se fosse uma floresta, é um espaço muito legal.”, Conta Raquel, Moradora da Vila dos Pinheiros. 

Além das recordações de infância e adolescência, as memórias atuais também nos contam sobre a relação do Parque Ecológico no cotidiano do território, como relata Amanda:

“Acredito que eu teria mais memórias nesse lugar quando criança/adolescente porque construímos muitas memórias nessa fase, porém, as memórias que tenho recentes são importantíssimas, de muita alegria de estar nesse espaço, de um lugar com muitas energias vibrantes e boas apesar de serem num contexto bem desfavorável de abandono do local. São memórias fortes de encontros e troca de saberes entre mulheres, de falas de agroecologia, agricultura urbana, de possibilidades de soberania alimentar dentro do espaço da favela, de atos políticos organizados por mulheres.”

Pensar sobre as memórias da Mata é um ponto de partida que se mostra muito potente para entender os processos históricos e as transformações desse lugar. O segundo passo é entender os motivos pelo qual a Mata é tão importante para Maré.

A Mata e as mudanças climáticas

Figura 4: Pôr do sol no Parque Ecológico da Maré (fotografia autoral tirada em janeiro de 2019)

Com o aumento da urbanização das cidades, os efeitos das mudanças climáticas se intensificaram, como o caso das ilhas de calor, elevando a temperatura do local. A presença de espaços verdes, como a Mata, no território da Maré, reduz esses efeitos devido a arborização.

“É um espaço que você consegue olhar a favela de cima e que circula um frescor que a gente quase não tem, principalmente pelo aglomerado de casas que temos ao nosso redor, das maneiras e condições que a vivemos, da poluição da terra e do ar”, ressalta Amanda. 

Áreas revestidas com vegetação ajudam na absorção do calor, tornando a temperatura do ambiente mais agradável. Além disso, espaços sombreados diminuem a sensação térmica em dias mais quentes e através do processo de evapotranspiração das árvores, o local fica mais fresco naturalmente, devido a liberação do vapor d’água na atmosfera.   

“Você sente um ar bem mais fresco, quando está calor dá pra sentir a diferença. A Maré em si durante o calor é insuportável, quando você está na Mata é bem melhor por causa das árvores, do ambiente”  acrescenta Tiago, morador da Baixa do Sapateiro

A medida em que damos continuidade à preservação dos espaços verdes, ajudamos a mitigar os impactos das mudanças climáticas, promovendo maior sensação de bem estar para o território.
 
Incômodos para pensar soluções

Agora que sabemos um pouco mais sobre a importância ambiental da Mata para a Maré, é hora de refletir sobre os incômodos que o espaço traz à população para pensar alternativas. Os moradores gostariam que o local fosse mais frequentado, que o Estado investisse na sua preservação e que houvessem mais mobilizações no Parque.

“O que me incomoda é o fato dos moradores não saberem a importância desse espaço, a área mais verde que a gente tem aqui. Um espaço enorme, com diversidade de plantas, horta comunitária. Esse espaço é muito rico e pouco valorizado. É importante dizer que existem ações dos próprios moradores para preservar o lugar, a maioria mora em frente a Mata, tem a associação também. Há um esforço dos próprios moradores locais para preservar. Seria muito interessante se mais moradores chegassem junto, de diferentes partes da Maré, ocupassem o espaço e entendessem a importância da Mata. As instituições locais também, fazendo atividades para tentar dar noção da importância do espaço pro território. Sem falar da presença do Estado, pensando políticas públicas na área do meio ambiente para a Maré. Sabemos que o Estado é muito ausente nas favelas. São pontos que me incomodam e precisam ser solucionados”, relata Brenda, moradora do Salsa e Merengue.

Figura 5: Vegetação Parque Ecológico da Maré (fotografia autoral tirada em novembro de 2020)

Outro incômodo presente nos relatos é bastante relacionado à falta de educação ambiental, consciência coletiva de cuidado e valorização desse ambiente, como acrescenta Thiago:

“Algo que me incomoda na Mata é a não valorização do espaço. As pessoas ainda não enxergam como um lugar útil, de lazer. Questionei aos meus amigos o porque pagamos passagem para ir à Quinta da boa vista fazer piquenique se aqui temos um espaço que podemos fazer o mesmo sem a necessidade de tanto deslocamento e trânsito. O Parque Ecológico tem coisas que lá fora tem, a Maré em si é assim e a gente não dá muito valor pra cá. As vezes passamos horas para ir para outro lugar e na Maré é muito melhor.”

A Mata dos sonhos 

Figura 6: Parque Ecológico da Maré (fotografia autoral tirada em novembro de 2020)

É possível pensar em ações que nos direcione para uma Mata cada vez mais cuidada, acolhida e preservada. O Parque Ecológico da Maré é um espaço potente, propício à memórias felizes e contato com a natureza. Cuidar desse ambiente é resistir e perceber que a Maré é diversa.

“A Mata não é só rica na beleza e biodiversidade, mas é rica em história e vivências. É um coração que precisa ser conhecido, vale a pena tocar. É um espaço que significa resistência para a Maré. É um espaço que conta a história do território, dos moradores… um espaço magnífico. Acho que tem várias coisas que podem ser feitas pelos moradores para preservar esse espaço, algumas inclusive já são realizadas. Entretanto, acredito que antes de tudo, é importante contar e lembrar da história da Mata. A partir do momento que você conta essa história, ela vai se expandir pela Maré e aí o olhar para esse local vai ser mudado, as pessoas vão entender a importância desse lugar para o território. O primeiro passo é contar a história da Maré e a partir disso pensar e reforçar alternativas de preservação para esse espaço.”, enfatiza Brenda.

A Mata é a memória viva da Maré e está conectada com as mudanças do território e com o cotidiano das pessoas. Falar sobre as vivências, histórias e lembranças do local é mantê-lo ativo e resistente. O caminho para uma Maré cada vez mais verde e saudável começa ao olhar para dentro.

E você? Quais são suas memórias da Mata?