Memórias

Casa 15, Porta Aberta

Maré, Rio de Janeiro

Josefa Gomes, 72 anos, natural da Paraíba, minha bisavó, viveu 45 anos na Maré. Minha memória fala sobre os ensinamentos que ela deixou, o quanto isso influencia nas mulheres da minha família até hoje e a importância de termos mulheres como ela no território. Minha avó teve 19 filhos, 10 morreram de fome antes de chegar na maré, os outros 6 morreram aqui de doenças causadas pela água suja. Ela enterrou todos os seis no cemitério do Caju e fazia todo esse percurso a pé, porque não tinha condução.

Eu acredito que para sabermos a história de um lugar precisamos ir atrás de pessoas que estiveram nele desde o princípio. As pessoas carregam memórias da Maré que nunca foram documentadas ou sequer faladas, coisas simples que fazem uma grande diferença na hora de entendermos sobre o território. Para registrar essa memória, pesquisei lugares que ela gostava de ir, a casa onde morava, documentos e coisas pessoais que pudessem me ajudar a entender mais sobre ela.

Dona Guida

Chegando na maré por volta da década de 70, depois de sofrer com a fome do nordeste, morou em uma casa de palafita desde sempre no mesmo endereço. Por falta de água andava por quase 1km com baldes na mão em cima da passarela de madeira, e caso algum amigo ou parente falecesse eram mais 4km a pé para poder se despedir.

Gostava de andar independente da situação. Sol, chuva e até tiroteio. Esperava sempre os momentos certos para dizer que esqueceu de comprar uma “coisinha” ali na Teixeira. Mesmo com pinos no joelho não deixava de passear. Mancava, descansava, se atrasava, mas chegava com uma toalhinha na cabeça para se proteger do sol e a garrafa de água debaixo do braço.

Essa é Dona Josefa, ou melhor, Dona Guida. Mulher, filha, esposa, mãe, avó, bisavó com um quê de fofoqueira ou só muito curiosa. A mulher das plantas e xaropes milagrosos. A dona das roupas mais floridas da Jardim América, que de tão apegada a sua fé, depois de morta até de santa foi chamada.

Mulheres do território

A memória que temos da Dona Guida é carregada de amor. Toda vez que fecho os olhos consigo materializar ela na minha frente sentada da porta de casa com um vestido florido e muito colorido, os cabelos presos e um sorriso no rosto. Consigo escutar sua voz me perguntando pela minha mãe e o
cheiro do chá de boldo que vem da cozinha. Ela sempre foi tão cheia de detalhes que é quase impossível esquecê-la. E não vamos!

Na década de 70, a maré ainda sofria com a falta de saneamento básico e assim crescendo a dificuldade de morar no território. Além das doenças, os moradores tinham muito trabalho para conseguir água, como minha avó. Em 1984 a chapa rosa, um coletivo só de mulheres, foi eleita para a Associação de Moradores da Nova Holanda. Começaram a fazer mutirões para conseguir água e saneamento básico, aos poucos foram conquistando espaço e lutando pelos direitos dos moradores.

Precisamos enfatizar a importância e influência de mulheres como Eliana, Dona Helena, Maria Amélia, Dona Guida e outras figuras que fazem parte do território.

Amor de gerações

Além da genética, algo muito presente nas mulheres da minha família é o amor e o cuidado. Essa essência foi passada por gerações e gerações; lembro de como minha mãe insistia que eu entendesse a importância de ser gentil e cuidadosa com o próximo, independente da minha relação com aquela pessoa, desde um grande amigo até alguém que eu acabara de conhecer na fila do mercado. Imagino que essa lição foi passada a ela por minha avó, que por sua vez aprendeu com minha bisavó e assim do mesmo modo, o que faz com que eu sinta a necessidade de passar isso adiante para as próximas gerações e continuar essa linhagem de mulheres fortes, determinadas e donas de um coração cheio de amor.

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